Moda Urbana Japonesa: Lolitas no Brasil

por Vitor Gonçalves

“Gente, só vou pedir que vocês tirem o sapato. Casa de japonês, vocês sabem”. Foi assim que Akemi Matsuda, há mais de dez anos no Brasil, nos recebeu em seu ateliê próximo ao metrô Praça da Árvore, em São Paulo. Aos entrarmos, o que chamava a atenção logo de cara era um pôster grande exibindo uma lolita com vestido rosa e babados, com pose de princesa-boneca.

 “É uma sensação que não dá pra colocar em palavras ou no papel. Quando você vê seu corpo como se fosse de uma boneca, é um sonho realizado. Todas as meninas brincavam de boneca quando criança. Você faz parte do conto de fadas”, diz Akemi. Atualmente, além de lolita, nossa entrevistada é também responsável por um ateliê de roupas dessa moda, além de organizar salas com a temática em eventos de cultura japonesa como Anime Friends, AnimeCon e Anime Dreams. Seu primeiro contato com a moda lolita foi num evento em Porto Alegre. A partir daí começou a se interessar e agora já faz parte desse universo há quatro anos.

 Segundo Akemi, lolita e cosplay pertencem há um cenário japonês, mas ela não gosta da comparação. “Cosplay tem regras, lolita não tem. O cosplay tem o desenho e tem que fazer igual. Lolita não, é mais livre”, esclarece. Ao mesmo tempo, há certa limitação entre as lolitas brasileiras, que não incorporam outros elementos ou tem medo de errar. “Aqui no Brasil, as meninas vêem o que tem na internet, na televisão, e já copiam. No Japão, a menina vê um sapato e pensa: será que esse pode ser um sapato de uma princesa? Daí ela vai e corre atrás de um vestido de princesa para aquele sapato”.

Akemi Matsuda veste Sweet Lolita

Akemi Matsuda veste Sweet Lolita

 Mesmo tendo um ateliê com roupas de lolita em São Paulo, Akemi acredita que hoje em dia não há um local que seja foco do comércio dessa moda no Brasil por causa da internet. “O poder da internet é muito grande”, reflete. A oferta de roupas e acessórios é mais conveniente virtual do que fisicamente, tanto pela variedade oferecida quanto pelos preços. Em São Paulo, especificamente, o lugar onde mais se pode encontrar materiais desse estilo é a Galeria do Rock, no centro. Mas, nesse caso, o sub-estilo é mais próximo ao punk.

 Com relação à variedade, a lolita pode ser de acordo com o gênero buscado pela pessoa. Se for o country, há mais xadrez. Se é o punk lolita, tem a meia-arrastão, um xadrez mais rebelde. O sweet lolita, que talvez seja o mais famoso, é aquele mais ilustrado em desenhos japoneses, com vestidos com mais babados, com estampas de doces, frutas e outros mimos. Mas, no geral, a estrutura é parecida: há influência do rococó, da época vitoriana, cheia de pompa e roupas trabalhadas.

Conheça os gêneros de Lolita aqui.

 Esse é um dos pontos mais curiosos com relação à moda lolita. Akemi diz que, na verdade, o estilo não reflete a cultura japonesa em nada. “Japonês é uma raça cheia de complexos e o complexo de querer ser ocidental é muito grande”. Segundo ela, quando o japonês se veste de maneira diferente, ele está querendo se aproximar do estilo ocidental, não se manter oriental. Por isso ela ressalta: quando uma menina, do Brasil ou de qualquer lugar do mundo, se veste de lolita, ela não está buscando a cultura japonesa. É simplesmente uma vaidade feminina. E ela continua ressaltando o fato ocidental. “Por isso que nos desenhos japoneses existem aqueles olhos grandes, aqueles cabelos…Eu, por exemplo, tenho físico japonês, mas adoraria ter um físico ocidental”, esclarece.

Kao e Akemi usando o estilo Sweet Lolita

Kao e Akemi usando o estilo Sweet Lolita

Nos mais de 10 anos que está no Brasil, Akemi percebe uma mudança no cenário da moda no país. E não só na moda lolita. “Quando eu cheguei aqui, uma das primeiras coisas que percebi é que todo mundo se vestia igual: calça jeans e camiseta. Não importava se era homem ou mulher, senhor ou senhora: era sempre calça jeans, tênis e camiseta. Hoje em dia mudou bastante, as meninas estão procurando coisas diferentes. Até mesmo na moda masculina”, explica Akemi. Além disso, no Japão há espaços mais determinados e reservados para moda, o que falta no Brasil. “(Aqui em São Paulo) Tem a Paulista, a Augusta, a Oscar Freire, que são ruas de moda, mas não é tanto quanto no Japão. Fora que você tem que ter um poder aquisitivo considerável, até pra entrar na loja”. Mas ela acha que isso está mudando, pois ressalta que o Brasil tem bons estilistas e que está havendo maior preocupação com isso. “Acho que falta bem pouco para que (o Brasil) se torne um mercado principal”.

 Akemi diz que já sofreu muito preconceito. “No começo era difícil. Lolita na rua era Emília, Xuxa, festa junina…Teve até casos mais pesados, onde achavam que eu era drag queen, pequena assim mesmo (risos)”. Em seus quatro anos usando o estilo lolita, porém, percebeu uma “passagem”. Agora esse estilo é muito mais aceito, assim como a moda em geral se desenvolveu. E as classificações (agora mais carinhosas) na rua vão muito além de bonequinha, segundo ela. “Agora é Lady Gaga. Mas eu não acho ruim…Gosto bastante.”

 Confira trecho da entrevista em vídeo com Akemi Matsuda: