Especialista comenta os relacionamentos amorosos nos tempos modernos

Hoje é dia de discutir a relação. Quem nunca foi pego dizendo essa frase para um(a) amigo(a)? Algo comum em tempos atuais, que recentemente ganha espaço na televisão brasileira, onde são mostrados casos da vida real para os telespectadores.

Tal formato de reality ganhou espaço na programação do Sistema Brasileiro de Televisão (SBT), emissora que apresenta o “S.O.S Casamento”, comandado pela psicóloga Ana Canosa.
A atração, que expõe em rede nacional situações vivenciadas por casais, ilustra esse momento onde o amor é discutido com exatidão, em virtude da comemoração do Dia dos Namorados.
Com mais de duas décadas de experiência, Ana nos concedeu uma entrevista para falar sobre esse sentimento marcado por diversas caracterizações. Da felicidade à frustração, a questão do amor se revela bastante curiosa em tempos de sociedade moderna, e, segundo a psicóloga, o nobre sentimento passou por uma tal banalização nos últimos anos.
Amar ou ficar? Você ama  a pessoa  com quem fica ou fica com quem ama? Complicada ou não, a questão é para confundir a cabeça das pessoas, que nos últimos anos trouxeram novas definições para esse sentimento. Mas a opinião da especialista, e talvez de grande parte da população, o importante é amar. No bate-papo com Ana Canosa, realizado na tarde de baixa temperatura dos estúdios da emissora na Anhanguera, momentos de seriedade mesclados ainda com frases que trouxeram risos e reflexões interessantes. Ana também aponta boas dicas para uma relação não cair na chamada rotina, como buscar um(a) namorado(a) ainda para este Dia dos Namorados, o relacionamento entre pessoas de idades diferenciadas, a questão da relação entre pessoas do mesmo sexo, a vida conjugal, o papel dos filhos no relacionamento conjugal, entre outros importantes temas que devem ser rediscutidos neste dia 12 de junho. Acompanhe.
Como você ingressou na área da psicologia?
Isso foi há 20 anos. Esse sempre foi um curso que eu quis fazer. Terminei a faculdade há 21 anos, comecei a trabalhar em consultório. Foi então que iniciei as atividades na área da  sexualidade. Já coordenei cursos sobre esse assunto e por isso acabei me especializando em casais. Meu percurso na sexualidade fez com que ficasse na terapia de casais. 
E a entrada neste reality, “S.O.S Casamento”? Como aconteceu o convite para a sua participação?
Há muitos anos participo de pautas sobre sexualidade e problemas de casais. Era uma fonte. Quando me telefonaram, achei que era mais uma pauta de telejornal. Quando soube qual era o projeto, fiquei totalmente surpresa, achei superlegal. Gostei demais do convite. Fiquei assustada porque em um programa de televisão é diferente, além de tudo eu tinha que lidar com as câmeras. Mas isso tem dado resultados superlegais. 
Muito se fala sobre os participantes em determinados programas do gênero. Explique como funciona a seleção para o programa que comanda.
Não participo dessa fase seletiva, mas funciona assim: as pessoas se inscrevem, e temos uma equipe de casting que faz uma primeira triagem. Daí elas verificam se as informações colocadas lá são verdadeiras; fazem uma checagem  para ver se não foram brigas plantadas do começo ao fim.  Também realizam uma entrevista e depois o casal passa por uma avaliação com uma psicóloga —uma amiga minha— , que analisa se eles possuem problemas mais profundos, que não conseguiremos trabalhar no programa. Depois deste processo eles conversam com o diretor e aí estão efetivamente no programa. 
Qual é a maior dificuldade de lidar com questões pessoais em frente às câmeras?
Não tenho dificuldades. Falo sobre isso há muitos anos. O mais interessante é que o casal chega a esquecer as câmeras. O tema que vejo que tem mais dificuldade em ser tratado, que as pessoas ficam mais constrangidas é a traição. Seja o homem ou a mulher o(a) traidor(a)  ou o(a) traído(a), é sempre bem delicado tratar disso, incomoda as pessoas. E também outro tema é quando um terceiro mora na casa do casal. Falar de alguém que não está presente, ou falar da sogra, da nora. Enfim, essa terceira pessoa  nem está lá para se defender, também é complicado. Os outros assuntos são mais fáceis. 
Qual é o principal erro que os casais cometem na vida conjugal?
Esquecer da vida íntima. Principalmente quando chegam os filhos. Um dorme com um filho e outro dorme com o outro. Você esquece que tem vida de casal após o nascimento dos filhos. Outra coisa é a falta de lazer. Os casais que saem, seja para ir ao cinema, ao teatro, ao parque, ao piquenique, trazem mais leveza à relação. A rotina é desgastante. Na questão da comunicação, as pessoas falham em dizer o que as chateia. Quando a gente comunica um sentimento, fica mais fácil o parceiro  entender o que acontece. Ao invés das pessoas falarem o que sentem, elas começam a gritar, agredir. Se focassem no que sentem, seria mais fácil.
Qual é a principal dificuldade de manter um relacionamento nos dias atuais?
É viver em um mundo individualista. Se acostumaram a viver com suas próprias coisas, seu sustento. Com isso a gente não tem treinado muito o compartilhar, dividir. Essa ideia de compromisso soa meio que “careta”. Na verdade não combina  com o consumismo que vivemos atualmente. As pessoas têm o “ficar”, e acham melhor “ficar” com 10 do que manter compromisso com somente uma pessoa. 
Como diferenciar o amor da paixão?
Paixão é química. Você não consegue controlar. É marcada pela simbiose, as pessoas nem se alimentam direito. Você não consegue perceber onde um acaba  e onde o outro começa. É tudo muito forte, você sente no corpo. Você acha que vai morrer se o outro for embora. Quando você está apaixonado, nunca trabalha tão mal, tudo parece mais fácil. E depois, quando o outro vai embora, dói. O amor é querer fazer o outro feliz. Quando a paixão diminui um pouco, a pessoa começa a ver o outro como ele é, não como o idealizado. Então a gente passa por três estágios: primeiro, a negação; segundo, a tentativa de conserto do parceiro; terceiro, a escolha definitiva da pessoa, ou não. Aí você descobre que ama mesmo. É uma escolha individual. Acho que o amor acaba se você se afastar; o outro já não tem significado. Por vezes fazemos uma opção. É possível resgatar o amor se o casal não estiver desconectado; se não partilharem da mesma conexão, é quase impossível. 
Como evitar esse desgaste? É possível fazer com que um relacionamento não caia na tradicional rotina?
É impossível evitar o desgaste. Ele chega  com o tempo, naturalmente. As pessoas não transam sempre com a mesma intensidade. O amor se transforma. Cada fase da vida é diferente. Fazer um casamento duradouro é saber enfrentar a crise, manter o bom humor, ter projetos em comum. Se o projeto é só de um dos dois, o casal se afasta porque não tem objetivos em comum. Saber que as fases mudam e que o sentimento de respeito tem que permanecer. Comemorar datas de namoro, casamento, é sempre importante, porque leva a uma reflexão das razões de estar junto a uma pessoa.
Neste domingo é comemorado o Dia dos Namorados. Quais as suas dicas para fazer desta data um momento especial?
A surpresa é sempre legal. Fazer algo que o parceiro goste, não algo que agrade só a si. Eu preciso primeiro olhar para o outro. Fazer algo que a pessoa goste, curtir mesmo o momento. O que vale não é  que você dará um presente, mas a maneira como você o prepara. Isso certamente fará da data um momento especial. 
 O que mais atrai os homens? E as mulheres?
Os homens sempre olham primeiro o físico. As mulheres também dão uma olhada nisso, mas os homens são mais intensos nesta observação. O que chama a atenção delas é o jeito da pessoa. Essa coisa do jeito é importante, que chame a sua atenção. Gostar um do jeito do outro, essa sintonia intuitiva é importante. Mesmo que isso num primeiro momento você não consiga explicar. 
Quais as dicas que você dá para quem está à procura de um namorado?
Variar o leque de opções. Ser mais aberto para conhecer o diferente. Variar seu grupo de amizades. Praticar esportes, se dedicar a seus hobbies. Participar desses grupos permite uma exposição maior de conhecimento a  novas pessoas e se conectar com aqueles que  curtem o mesmo que você. Isso pode aproximar pessoas. Tem que ir para o mundo, não pode desanimar. 
Você acha que o amor está banalizado nos dias de hoje?
Sim. As pessoas normalmente dizem “eu te amo”. É normal dizer “eu te amo” para um amigo, mas é um tipo de amor fraternal. O amor pode ter diversos sentidos. As pessoas não entendem que  amor é compromisso, é fazer o outro feliz. Elas não se comprometem com a felicidade do outro. Como alguém que me ama  me boicota o dia inteiro? Acho é que na verdade as pessoas não querem comprometimento. E ninguém também pode depositar totalmente sua felicidade no outro. Para estar feliz, eu tenho também que estar bem em outras áreas da minha vida. 
O amor realmente não tem idade?
Na verdade com 12 anos de idade temos as famosas paixonites. A pessoa ama, mas não é como um amor adulto, porque  não tem a consciência de compromisso que o amor requer. Pode ser um amor mais fraterno do que erótico. É possível dizer que o amor não tem idade, mas não é o mesmo amor adulto. 
E a grande diferença de idade entre casais, interfere?
Tem prós e contras. Aqueles que levantam a bandeira favorável podem aprender muito com uma pessoa mais velha e ela pode ganhar jovialidade com o parceiro mais novo. Mas também pode ser muito difícil conviver com as idades por conta dos valores diferentes na fase em que cada um se encontra. Pode ser difícil também se entrosarem com as turmas de amigos. Uma pessoa mais velha pode se sentir deslocada em uma turma de 20, se essa for a idade mais ou menos. 
E o relacionamento entre pessoas do mesmo sexo?
Pode ser mais fácil. Porque como ambos são do mesmo sexo, entendem um ao outro com maior facilidade, porque têm as mesmas necessidades. As mulheres são muito mais objetivas, e os homens, subjetivos. De certo modo, pode ser interessante, porque as pessoas se entendem, mas também pode ser ruim, pois imagine duas mulheres convivendo juntas… As reclamações, a TPM. Na verdade tem muito mais a ver com a pessoa, não com o sexo dela. 
Como a proposta de seu programa de televisão é uma “terapia de casais”, transmita algumas dicas para a felicidade conjugal.
Conversar sempre que possível, mas evitar as discussões de relação, porque desgastam mais o relacionamento.  Contar como foi o seu dia. Comunicar se você tem alguma coisa que o magoa ou insulta, mas falar sobre como você se sente. Não acumular raivas  ou frustrações. Fazer atividades de lazer  juntos, mas também manter um pouco da individualidade de cada um. Acho que todos devem ter  seus amigos próprios, seus círculos sociais. E outro item importante também é o prazer sexual, que gera harmonia para um casal.
 
Por: Alessandra Gardezani
 
 
Ana Canosa é apresentadora do SOS Casamento

Ana Canosa é apresentadora do SOS Casamento