Afinal o que foi o Mangue Beat?

Por Janderson Angelim, Fabio Bardella e Leandro Souza

O Mangue tinha como proposta central equiparar a produção musical pop recifense com o que havia de mais criativo no pop internacionalizado, simultaneamente os artistas envolvidos utilizavam um rico e heterogêneo material sonoro tradicional da própria região baseado nos gêneros, ritmos e instrumentos pernambucanos que mais se aproximam das formas musicais afro-americanas globalizadas (rock, funk/soul e rap) e mais tarde das músicas produzidas por músicos africanos (Fela Kuti, Manu Dibango, entre outros) ou com que melhor se mesclava com elas.

Em trecho da publicação “Meteoro Chico” de Jose Teles, fica clara que uma das principais intenções era unir a música pernambucana de raiz à música do mundo.

Leia sobre o desenrolar e as conquistas da Cena Mangue

“Já em junho de 1991, na festa Black Planet, no espaço Oásis, em Olinda, quando ocorreu o show de estreia do grupo Chico Science & Nação Zumbi, Chico comentava: “é nossa responsabilidade resgatar os ritmos da região e incrementá-los, junto com uma visão mundial que se tem”.

Em entrevista ao pesquisador em musicologia Daniel Sharp, Renato L. e Hélder Aragão (Dj Dolores) comentaram que a ideia de Science e de outros que figuraram o Mangue Beat era de “envenenar” os ritmos regionais com amplificação, mais timbres graves, baixo e guitarra elétricos. O que não significou tratar os ritmos regionais como se fossem fósseis intocáveis.

O Mangue Beat foi além do objetivo escrito em seu manifesto e pedra fundamental para a divulgação de sua estética, ideologia e musicalidade nos veículos de comunicação (uma vez que o seu manifesto foi escrito e apresentado inicialmente como um release destinado à imprensa).

O que surgiu como uma tentativa de movimentar a cena cultural da cidade priorizando a produção de artistas locais caracterizados por uma espécie de hibridismo musical conquistou espaço e respaldo entre a crítica e o grande mercado da música.

O Mangue transformou a cena musical pernambucana e requalificou o estado com o status de vanguardista na área cultural, rica em manifestações caracterizadas pela autenticidade e inventividade artística.

Para o diretor de conteúdo da produtora Identidade Musical e doutorando em literatura brasileira, Rogério Duarte “O manifesto foi um vulcão de expressividade, brasilidade e união, pois conseguiu unir arte e ativismo num engodo só”

O professor de comunicação da PUC-SP e doutor em Comunicação com tese sobre hibridismos musicais de Chico Science e Nação Zumbi, Herom Vargas, afirma que o Mangue foi um processo de produção e divulgação de novas criações em música pop – com ecos no cinema, moda, artes plásticas, dança e literatura – ao mesmo tempo em que recuperou as tradições musicais de Pernambuco. “Esse movimento se pautou tanto na busca desses ritmos e seus produtores populares, como também na construção de formas de divulgação dos trabalhos dos jovens músicos e dos artistas tradicionais”, afirma Vargas

De acordo com ele uma das ideias centrais do movimento era “antenar” os novos produtos da cultura urbana com os desenvolvimentos mais recentes da cultura pop, a tecnologia eletrônico-digital e as formas da cultura local.

Como consequência, ocorreu uma radical equiparação da produção musical pop recifense com o que havia de mais criativo no âmbito internacional.

O Movimento articulado em mesas de bar e festas nos guetos das cidades do Recife e Olinda conseguiu reinserir a cultura pernambucana no cenário cultural do país, descentralizar, por um considerável período, o foco de atenção da indústria cultural (gravadoras, produtoras, artistas e mídia), renovar a cena musical pop do Brasil e unir artes plásticas, cinema, música de raiz, cultura urbana e estilos variados da música pop contemporânea.

“É incrível como a MTV, que era recém-chegada ao Brasil, abriu as portas para Chico. Lembro de vários especiais e coberturas de shows ao vivo na época. Isso fez a gente perceber que estávamos participando e criando algo novo”, diz Ana Sousa.

Em sua tese de doutorado em Musicologia (Maracatu Atômico- 2002)”, Philip Galinsky afirma que “os músicos pernambucanos de diversas origens estavam juntos recuperando – e remodelando – aspectos de suas tradições locais enquanto incluíam a tecnologia e a cultura global […] e como específicos artistas populares e movimentos comprometiam-se com a herança local e a globalização na sua construção de ideologias e identidades renovadas”.

Para o pesquisador Daniel Sharp, “o que os músicos recifenses têm em comum é um senso de manejar a complicada história do Nordeste em face da crescente globalização econômica e do avanço tecnológico mundo afora”.

O Mangue, sem dúvida foi um fenômeno catapultado à mídia e ao público consumidor de arte por meio da sonoridade, autenticidade e postura de Chico de Science & Nação Zumbi e Mundo Livre S/A. Reduzir ou generalizar este fenômeno como movimento musical e somente isto, é desconhecer que existem linhas que constituem a articulação e união de mentes, corações e ações de todos os artistas, intelectuais e ativistas que transformaram o cenário cultural de Pernambuco .

O Mangue Beat foi o catalisador das mentes e talentos artísticos desejosos pela transformação de uma realidade por meio das expressões artísticas. Por rios, pontes e overdrives os mangue boys e manguegirls mudaram uma cidade e falaram de sua cultura de uma forma moderna e interessante, como escreveu e cantou Chico Science, deram “um passo à frente e não estavam mais no mesmo lugar”.

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